Agora, porém, eu estava enfiado na verdade da América, na escuridão da América. […] Em vinte e quatro horas só testemunháramos, por parte dos governos, uma preocupação real: fiscalizar.
—Osman Lins e Julieta de Godoy Ladeira, La Paz existe?
Fui a São Paulo, meio viagem de trabalho, meio momento de encontros com amigas, amigos, mais um tanto de passeio. Resolvi também comemorar o aniversário por lá, em bons clubes de jazz. Acrescentei a magnífica Lygia Clark na Pinacoteca, Diásporas Asiáticas no museu Tomie Ohtake. Na Casa das Rosas, tomo um café com Hugo Almeida, escritor que admiro. Pois durante o café descubro que inventei uma leitura. Afirmei com veemência ter lido Acompanhante, o romance em que Julieta de Godoy Ladeira, esposa de Osman Lins, narra a doença e morte do marido. Ele se surpreende, o livro não foi publicado. Leu os originais no Instituto de Estudos Brasileiros, na USP, mas faltava uma parte. Continuo na afirmativa, mas a dúvida salutar entra em cena, ele descreve uma passagem, “se você leu, lembra de…”. Não lembrava. A certeza contrária se plantou, eu não devia ter lido o livro, mas algum material divulgando o livro que ela escrevia, para o qual contou com uma bolsa Vitae. Baixei a bola, creio que inventei uma memória de leitura, Hugo, disse. Talvez a força de outra obra de Osman e Julieta, que li com entusiasmo e angústia tenha fornecido lastro a essa leitura que, agora sei bem, não fiz. Não fiz, mas criei, em um ato de memória inventiva.
Lygia Clark me deu logo a seguir uma boa chave de compreensão para o que aconteceu. Para ela, existe uma linha imaginária que separa um quadro do real para o qual ele transborda, ferindo o traçado da moldura. Lygia cria o conceito e o desenvolve em algumas telas que vi na Pinacoteca. Na esteira de uma linha orgânica, vim reler La Paz existe?, um relato da viagem de Cuzco a La Paz, feita pelo casal em 1977. Uma viagem atormentada, em meio à chuva forte, por estradas de terra, desconforto, equívocos e uma impossibilidade de chegar que fazia do destino final uma quimera inalcançável.
Em 2011, fiz parte desse percurso com meu marido, com boa logística de turismo, mas sem o contato intenso com o povo, bastante presente na viagem de Osman e Julieta. Em nosso roteiro, no entanto, muita conversa com quem encontrávamos pelo caminho, algumas informações preciosas que foram para o Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. Acredito ter lido o livro antes dessa viagem, e minhas memórias de leitura se atrapalham, outra vez.
Uma observação na margem do livro chama minha atenção sobre o período dessa leitura. No texto que descreve a vista majestática das montanhas, surge o … rio barrento, avançando crespo de espuma, ruidoso, irregular, seguindo em ondas que estouram, rolam… e ali também a palavra explode: “Urubamba!”, assinalei em escrita à mão. O nome do rio não aparece no texto de Julieta/Osman, mas me foi dito pelo guia de viagem e pelas placas no caminho. No ponto em que o via, mostrava-se imprensado entre a montanha e margem feita estrada. Urubamba (a palavra rola, águas soltas na boca) – que se torna Ucayali, no trecho dali até o rio Marañón, onde recebe o nome de Amazonas – rugindo a um metro de mim me dizia fúria e impotência. Aos pés de Machu Picchu poucos lembram do rio que é um dos orgulhos do Brasil. Tampouco que aquela região é parte da Amazônia. Diz o Diário:
5 de março de 2011, a caminho de Machu Picchu.
No distrito de Cachimayo, em deslocamento por terra até Ollataytambo, a propaganda dá o tom.
Se você tem Claro
tem tudo.
Eu sou Claro.
Em Chinchero, um dos sete distritos da Província de Urubamba, um anúncio oportuno.
Ministério da Educação
Estamos derrotando o analfabetismo.
Urubamba, os alfabetizados avançam com a continuidade educativa.
Em um muro, o aviso:
Urubamba é território Claro.
Território Claro. Envergonha-se de si mesmo o Vale Sagrado. Nos teatros brasileiros andam sumindo os nomes de grandes atores ou atrizes, substituídos pelos nomes das empresas que os financiam e com eles lucram. Neste território nobre, em que o último Inca, Tupac Amaru, morreu em dignidade e resistência, conseguirá se impor o nome de uma companhia de telecomunicação, subsumida amanhã em outra empresa de maior capital?
Osman menciona o orgulho dos peruanos, que nunca pedem nada, não estendem a mão por esmolas. Em determinado ponto da travessia, afirma … li esta placa simples, às vezes enganosa, mas cheia de promessas e que sempre representa uma perspectiva qualquer de melhora: ESCOLA.
América Latina. Chegamos aí, Julieta e Osman, Paulo Cesar e eu. Julieta fala por nós, ainda que em viagens diferentes: Chegamos a um lugar afastado para iniciar, decerto, nova etapa. Todas as portas, de todos os lados, cerradas. Devemos encontrar, de novo, um fio que conduza.
Nilma Lacerda é doutora em Letras, com pós-doutorado em História Cultural. Presente na publicação da Casa Philos, 37 escritoras neolatinas contemporâneas, escreve ficção que adultos leem, ficção que crianças e jovens também podem ler, ensaios e obras de cunho acadêmico. Foi professora da Universidade Federal Fluminense e, em sua carreira literária, tem recebido vários prêmios e distinções, dentre os quais o Prêmio Jabuti, o prêmio Rio e o selo White Ravens. Com obras publicadas na América Latina, é também tradutora e colaboradora de periódicos literários. Acesse o site oficial nilmalacerda.com.bre siga a colunista no instagram e facebook.